UM MENINO DE ALMA LEVE VOANDO SOBRE O PELEGO

Lá se vão 7 anos!
UM MENINO DE ALMA LEVE VOANDO SOBRE O PELEGO



Cidade de lona, Uruguaiana, 1980. Pelas vielas de terra e sob a copa das árvores generosas que sublimavam a inclemência do verão da fronteira, fervilhava a décima edição da Califórnia da Canção Nativa. Estávamos mergulhados na paisagem do pampa. Fazíamos parte dela. Não como uma colagem, mas como se pertencêssemos a ela desde sempre. Mesmo com essa sensação de pertencimento ao lugar, algo havia de levitação que nos erguia sobre as barracas, as canções e os aromas de assado que se perdiam na fluência daqueles dias. Eram tempos verdes aqueles. Tempos de iniciação. Em tudo havia devoção a terra. Isso nos reunia e nos significava, nos dava sentido e, ao mesmo tempo em que nos cifrava, era o nosso enigma.

Às primeiras horas da noite, esse ambiente migrava para o palco do Cine Pampa. Lá desfilavam os cantores e suas invenções: pequenos artefatos de fazer sonhar. Depois, nas madrugadas acolhedoras do acampamento, cada alma voltava a flanar pelos desvãos daquele onírico povoado. Mas foi no teatro onde me encontrei pela primeira vez com os versos de Antônio Augusto Ferreira. Quem já foi tropa, mas é tento agora, afina o coração pela guitarra. Esses versos falavam-me ao espírito. Pareciam também me pertencer. Remetiam-me àquela mesma sensação que era experimentada na cidade de lona, na qual a alma do homem e a alma da terra pareciam pretender rotas de encontro. E seguia a canção, gastei poncho e cachorro nas estradas... 

Esta canção, cujo título é Pago Perdido (parceria de Antônio Augusto Ferreira e Éwerton Ferreira, assim como Veterano e Entardecer), hoje faz parte do que de melhor foi produzido pelos cancionistas gaúchos no movimento dos festivais deflagrado pela Califórnia de Uruguaiana no início de década de setenta. Desavisadamente, pode-se ter a impressão de que se trate de alguém falando do passado num exercício melancólico de reminiscência, contudo, desde a primeira audição, para mim nada havia de perdido naquele pago. O que a maestria do poeta conseguia com seus versos era refletir, através da linguagem plena de suas melhores possibilidades, o grandioso e o ínfimo da vida humana. Aquilo que se foi e aquilo que se poderá ser que vivem misturados no que se é.

Assim conheci Antônio Augusto Brum Ferreira, o Tocaio - alcunha da juventude que ainda lhe acompanha (foi o folclorista Antônio Augusto Fagundes, parceiro das rondas tradicionalistas dos alvoreceres do 35 CTG, que lhe cunhou o pseudônimo sob o qual publicou seus primeiros poemas). E bastaria sabê-lo assim. Contudo, tive o privilégio de tê-lo como amigo e como parceiro de canções. Amizade e parceria frutos de sua imensa generosidade. O amigo foi sempre um ancoradouro, uma palavra precisa e um acolhimento. Afinal, assim é que são os amigos: faróis na neblina e vento nas calmarias. Mais tarde, já com um convívio familiar estreito, descobrimo-nos origens comuns e próximas em nossa ascendência açoriana. Ainda que os momentos de convívio familiar proporcionados pela amizade tenham sido raros em qualidade humana e, portanto, indeléveis, prefiro, neste pequeno exercício de saudade, fixar os olhos na singularidade de sua obra poética e em suas canções.

Em Sol de Maio, sua primeira publicação em 1985, além dos textos de algumas canções já gravadas à época como as três já citadas, vamos encontrar desde o vigor confessional do Sonho Criador em que uma destemida trajetória humana constata Ah! mocidade arisca que dispara! e reconhece que ver a planta que nasce é ter um filho, até o eterno desconcerto que sempre há de causar um rosto que se insinua: você não abra mais o seu sorriso, que eu posso pensar que foi pra mim... Assim começa o poema Ressábio que em sua última estrofe é contundente:

E foi você partir e meu melhor pedaço 
se quebrou em cacos e se foi pro ar,
agora não me tente, irresponsavelmente, 
que eu preciso tempo pra me remendar.

Alma de Poço (também título de uma parceria nossa que foi considerada a melhor canção entre as vencedoras dos festivais de 1990) é um livro para se ter sempre à mão e para ser guardado como uma jóia. Ter-se sempre ao alcance porque o poema de apresentação promete para quem anda sedento: Taí o poço! Quem vier em rota de sede, faça a viagem do balde: vai salgar a boca. E o objeto-livro é uma confecção de tanto esmero no projeto gráfico e na beleza das imagens que deve ser cuidado em sua preciosidade.

Em 2003, o Tocaio nos presenteou com outra pérola do seu inesgotável criatório: (se ainda não disse, digo agora: Tocaio era um fazedor de pérolas.) Tio Bonifa e seu cachorro Piraju. Outra beleza. Contos afetuosos sobre o cotidiano da querência relatados pela argúcia de um narrador que conhece o imaginário popular do rincão e pelas vozes dos próprios heróis: o velho e sábio gaúcho e seu fiel e não menos sábio cão escudeiro. 

Às vésperas de publicar mais dois livros de poesia, Antônio Augusto é eleito membro da Academia Riograndense de Letras, em 2004, passando a ocupar a cadeira nº 28. Em 2005 lançou Coisas do Campo e Coisas da Vida. No primeiro reafirma sua condição de poeta intimamente ligado à paisagem rural do Rio Grande do Sul e sua extrema familiaridade com os usos e costumes dos homens do campo.

Em Coisas da Vida, estão reunidos poemas com variada temática: jacarés, aviões, borboletas, cumplicidade, paixão, medo e amor. Com a mesma habilidade o poeta manobra seu florete e retira dessa esgrima versos que vão entrando pelas salas acendendo luzes e enveredando pelos galpões para reavivar as brasas e as almas que a vida cobre de cinzas e a poesia insiste em tornar labaredas.
Sua voz permanece cantando em cada fundão de campo onde um rude peão – guitarra ao colo – repete com emoção: se lembro o tempo de quebra, a vida volta pra trás, sou bagual que não e entrega assim no más... 

O poeta restará acordando vidas antes do fim com seus sóis de maio desgelando almas. O poeta, com sua voz de estrelas, continuará iluminando os céus das noites arrabaleiras. O poeta, que por meio de tantas vozes cantou, canta agora mais ainda, pois conseguiu transformar-se todo ele em sua própria e infinita canção. Lá vai o Tocaio fundido ao coração da gente. Lá vai o Tocaio a inventar cacimbas para nos matar a sede. Lá vai Antônio Augusto, o Tocaio Ferreira, um menino de alma leve voando sobre os pelegos.

Vinícius Brum
Abril de 2008
Foto: Internet
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