Nacos da História Gaúcha - General de Duas Pátrias Aparício Saraiva

Aparício Saraiva

Por Paulo Menna

General Aparício Saraiva nasceu em 16 de agosto de 1856, na estância de seu pai, em Santa Clara de Olimar, na época pertencente ao departamento de Cerro Largo e hoje ao departamento de Treita y Tres, no Uruguai, filho de Francisco Saraiva e Pulpícia da Rosa. A família Mudou-se para a banda oriental em busca de melhores dias, porém nunca cortaram os vínculos que tinham com o Rio Grande do Sul. O velho Chico, que lutara ao lado de Bento Gonçalves pela República do Piratini, e que tinha orgulho de se denominar farrapo, era estancieiro abastado, dedicando-se à engorda e à venda de cavalos e bois.

Nos primeiros dias de janeiro de 1893, numa noite em que o minuano soprava forte a mão invisível do destino tirou Aparício Saraiva das lides campeiras, despediu-se do pai, esposa e filhos e foi encontrar-se com seu irmão batizado no Brasil, Gumercindo Saraiva, fazendeiro em Santa Vitória do Palmar que se encontrava integrado nas hostes do Partido Liberal, e que estava acampado nos cerros de Aceguá, território uruguaio, juntamente com uma tropa de quatrocentos homens, na maioria brasileiros.


Em 2 de fevereiro de 1893, entrava no Rio Grande do Sul uma coluna de guerreiros chefiada pelo irmão Gumercindo, em território brasileiro, sendo posteriormente seguida por outra comandada por Aparício. Este fato marcou o início da Revolução Federalista que abarcou todo o sul brasileiro, os dois irmãos, à testa de centenas de revolucionários, enfrentaram tropas legalistas em solo gaúcho, e, depois, quando da eclosão da Revolta da Armada, foram abrindo picadas com seus cavalos, desde os pampas, até Florianópolis, onde foi instalado o Governo Provisório da República, na então chamada Ilha do Desterro, onde já unidos ao Almirante Custódio de Mello, passaram também a combater Floriano Peixoto, poucas semanas depois, encontravam-se em Paranaguá, prestes a subir a Serra do Mar, tomando Curitiba e “se adonando” do Paraná.

Dizem os poucos biógrafos que Aparício Saraiva foi um dos maiores caudilhos sul-americanos, que ele só participava de batalhas armado de lança e que o corpo de lanceiros que comandava era temido pelo adversário, seja em razão da perícia no uso de arma tão primitiva, seja pela violência do impacto que os cavalarianos de cabelos longos provocavam, ressoando gritos de guerra e caindo como verdadeira avalanche sobre a infantaria e a artilharia inimigas.


Depois de conquistada a Lapa, os revolucionários foram para Ponta Grossa, Aparício não tendo batalhas para enfrentar dedicava-se a melhor organizar os lanceiros, com eles fazendo exercícios diários; enquanto Gumercindo, como Comandante, recebia e passava telegramas a outros insurretos, amadurecendo os próximos passos que seriam dados pelos seus quase cinco mil guerreiros.

O Exército Libertador, sentindo que os florianistas avançavam da parte de Castro e do litoral, resolveu se dividir em três grandes colunas, confiada uma delas a Aparício e a Torquato Severo que, deveriam conduzir os integrantes até a Lapa, encontrando-se, todos, ao final, em Nonoai, para continuar os combates nos campos rio-grandenses: marchar desunidos e combater unidos, foi o princípio escolhido pelos irmãos Saraiva.

Passando por enormes dificuldades tiroteando com forças legalistas, as colunas, exceto a de Juca Tigre que tivera que se internar na Argentina, por fim, retornaram aos pampas, onde a luta continuou, com uma pausa de respeito e de dor apenas quando, em Carovi, Gumercindo recebeu o fatal balaço, um pouco, depois de enterrado Gumercindo no cemitério de beira de estrada, reúnem-se os principais chefes revolucionários e, por unanimidade, elegem Aparício seu novo líder, continuando a peregrinação e os embates pelas terras gaúchas.

Em 23 de agosto de 1895 em pelotas a paz, proposta pelo novo Presidente da República, Prudente de Morais, é, então, consolidada pelo General Galvão, em nome das forças governistas, e pelo General Joca Tavares, representando os federalistas. Em 25 de outubro de 1895, Aparício, chega, depois de três anos e mais de três mil quilômetros palmilhados por matas e campos, à fazenda de El Cordobez, onde encontra a mulher e os filhos à sua espera. Estava com trinta e nove anos de idade e, no Brasil, havia participado de setenta e dois combates e de cinco grandes batalhas, envergando, por um ano, a autoridade de General brasileiro e de chefe do exército revolucionário.

Em de 1896, Aparício, participa da então, primeira revolução nacionalista, do Uruguai, e em 1897, da segunda revolução nacionalista. Em 1904, luta contra o presidente José Batle y Ordóñez, até que, na batalha de Masoller, é ferido e levado por seus homens para território brasileiro, até os campos que pertenciam a João Francisco, a Hiena do Caty, onde faleceu e foi enterrado.

Mas somente em 1921, é que seus restos foram reclamados pelo governo uruguaio e no rincão do Artigas, durante singela cerimônia fúnebre, dois brasileiros entregaram a urna funerária coberta pelas bandeiras do Brasil e do Uruguai, acompanhados de quinhentos gaúchos a cavalo, veteranos das incontáveis.

DE DUAS PÁTRIAS
( Marcelo D´Ávila )

"Caudillo blanco" forjado a ponta de lança,
Foi ordenança, "cabo viejo" e general;
Com Gumercindo peleou em noventa e três,
A uma só vez, riograndense e oriental.

Hay lenços brancos nas fileiras maragatas -
Índios do Prata tendo a guerra por ofício.
Vai na vanguarda o General de Duas Pátrias
E na culatra umas novilhas pro munício.

Marcham valentes nos caminhos da fronteira,
Rumo à Rivera sem temer o sacrifício,
De peito aberto, ouvindo o vento que assopra
Alguma copla em honra a Dom Aparício.

Em Masoller trançaram aço com aço
Quando um balaço disparado pela raiva
Pôs fim ao homem, mas criou um novo mito
No último grito de Aparício Saraiva.

O poncho velho que em tantas noites escuras
Foi armadura na barbárie das batalhas
Agora cobre o corpo inerte do guerreiro
Num derradeiro e terno abraço de mortalha.
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