Martin Fierro nasceu em Santana do Livramento !
Nacos da História Gaúcha - Martin Fierro
Na divisa entre vida e literatura
Historiadores afirmam que o mais importante
personagem da literatura argentina teria sido inspirado num homem de carne e
osso encontrado por Hernández em suas andanças
Por longo período, os argentinos irritaram-se
com uma afirmação que consideravam mera demonstração da empáfia brasileira.
Era-lhes muito ofensiva a idéia de que Martín Fierro, o gaucho por excelência, criação imortal de
José Hernández, pudesse ter sido parido em Santana do Livramento, na região da
Campanha do Rio Grande do Sul. Os vestígios deixados pelo poeta, entretanto
foram dobrando a resistência. Em 1940, o jornalista J. M. Fernández Saldara, do
jornal portenho La Prensa, perseguiu os rastros do poeta até a cidade
brasileira, rompendo uma barreira — na Argentina, mencionava-se sempre
rapidamente o exílio de Hernández no Brasil, eludindo-se arrogantemente o nome
de Santana do Livramento. Hoje, praticamente não se duvida que a primeira parte
do livro, publicada em Buenos Aires em dezembro de 1872, tenha sido escrita à
mão numa caderneta de bolicho quando José Hernández se alojava num dos quartos
da casa do comerciante espanhol Pedro Garcia. O prédio ainda resiste, apesar de
várias agressões, na esquina das ruas Rivadávia Correa e Uruguai.
No ensaio
que escreveu sobre o poema fundamental da literatura argentina, Jorge Luis
Borges comenta: "Fugiu, dizem que a pé, para a fronteira com o Brasil.
Umas palavras reticentes, estampadas no prólogo de Martín Fierro, dizem que a
composição desta obra o ajudou a fugir do tédio da vida do motel; Lugones
entende que esta referência é a um hotel da Praça de Maio, no qual ele
improvisava o poema 'entre seus negócios de conspirador'; outros interpretaram
que alude a Santana do Livramento, onde os gaúchos orientais e rio-grandenses
traziam-lhe a lembrança dos gaúchos de Buenos Aires. Algumas locuções próprias
da campanha do Uruguai parecem justificar essa conjetura".
Por aqui, a tese do Martín Fierro brasileiro
volta e meia reaparece em páginas de jornais e livros, no descompasso da
memória nacional. Mesmo nas ruas de Santana do Livramento há os quem nem têm
idéia de quem foi José Hernández. As pessoas se espantam quando alguém, num
momento raro, pára junto ao maltratado prédio na Rivadávia e tenta decifrar as
inscrições das placas ali pregadas. Mas o assunto já agitou mentes curiosas. Na
juventude, o pesquisador tradicionalista Paixão Côrtes não descansou enquanto
não conseguiu um exemplar da obra. Acabou indo com três à "casa de José
Hernández" , como é conhecido o solar centenário onde o poeta viveu em
Livramento. O jovem Paixão arrancou autógrafos de Belmira Garcia, filha do
proprietário do imóvel histórico.
Pode parecer excessivo dar tanta importância a
um aspecto à primeira vista circunstancial para louvar um punhado de tijolos
soldados por cimento e barro. Na literatura, entretanto, nem sempre a razão é
vencedora. Amantes das letras apaixonam-se por personagens, pontos topográficos
e rochedos, como também por pessoas. Martín Fierro tornou-se um semideus. Como
seus traços não deveriam provocar adoração? Portanto, não seria exagerado
afirmar que em Santana do Livramento estão os despojos de um templo. Meio
esquecido, é certo, mas mantendo uma pátina de sagrado. Nele, teria nascido um
ser calcado na imagem do gaúcho comum que se tornaria sobre-humano.
Da guerra, tormento que perseguiu Martín
Fierro, nasceu Martín Fierro.
Numa dessas sangrentas revoluções típicas do pampa, não importando de que lado
da fronteira, em que a peonada era recrutada sem ter escolha, e os gaúchos,
caçados nos bolichos e nas estradas pelos esbirros dos chefes políticos. Em
abril de 1870, a província de Entre Rios foi varrida pela violência. O caudilho
Ricardo López Jordán sublevou-se contra o governo local. Um comando rebelde
assaltou o palácio e assassinou o governador Justo José de Urquiza, causando
comoção nacional. Acreditando que a vitória estava consolidada, López Jordán
entrou com seus homens na capital, Concepción del Uruguai, e foi eleito governador
pelo parlamento. O presidente argentino, Domingo Faustino Sarmiento,
entretanto, não quis deixar impune o homicídio de Urquiza e enviou uma
expedição militar contra os rebelados. Por longos meses, as brigadas legalistas
caçaram, com constantes encontros sangrentos, os revoltosos entrerrianos.
Hernández incorporou-se às hostes de López Jordán em novembro. No mês seguinte,
as forças rebeldes foram completamente desbaratadas e seus líderes fugiram para
o Uruguai e o Brasil.
Hernández foi obrigado a seguir os passos do
chefe, que rumou para Santana do Livramento, a fim de fugir das tropas
legalistas depois da derrota rebelde em Naembé. Nos seus calcanhares cavalgava
o bando de um certo Fidelis, a mando do governo colorado. Fernández Saldara
duvida que a viagem tenha sido feita a pé. "O mais provável é que tenha
chegado ao povoado brasileiro pelas diligências do Salto Oriental." Na
narrativa viva do historiador uruguaio Alfredo Lepro, a chegada dos fugitivos é
digna do estilo imaginoso de Hernández: "Cruzando o fio de água barrenta
do Curapirú, dirigem-se ao casario (cento e poucos ranchos e algumas casas de
alvenaria. Essas últimas, quase todas de comércio). Pelo areal da rua principal
voltam a encontrar a 'linha divisória' a 10 ou 12 quadras, pelas barrancas de
terra vermelha, 'Santana do Livramento' no Brasil, onde vão parar na Estalagem
dos Garcia. As pessoas os rodeiam, curiosas e ávidas de saber coisas. A
hospitalidade da família do estalajadeiro propiciará tertúlias onde não falta o
truco com seus improvisos em verso".
Em Santana do Livramento, Hernández reuniu-se a
Juan Pirán e Pedro Aramburú, companheiros no levante contra Urquiza. Os dois
eram considerados diretamente culpados do assassínio do governador entrerriano,
foragidos da Justiça argentina. A situação da dupla era complicada pelo fato de
serem residentes em Montevidéu, vistos como bárbaros estrangeiros, portanto.
Numa carta pública, Aramburú alegava inocência. Garantia que ambos, no trágico
entardecer de 11 de abril de 1870, limitaram-se a ficar do lado de fora do
palácio, alheios às intenções dos que entraram na sede do governo. Acreditavam
afirmava Aramburú, que o propósito era aprisionar o general. O jornalista
uruguaio Martín Correa, morador de Rivera, sustenta que outro emigrado também
os acompanhava na época: Olegário Vitor Andrade. Nascido em Alegrete, Andrade
foi ainda criança para a Argentina. Educador — Correa o compara a Paulo Freyre
—, Olegario foi deputado quando voltou do exílio e seu nome batiza inúmeras
escolas na Argentina. De acordo com Alfredo Lepro, autor de Vida de José Hernández y su Amigo
Martín Fierro, uma lembrança cutucava o espirito de Hernández no exílio.
Ainda em solo argentino, ele teria cruza com um gaúcho de nome Martín Fierro,
cujas histórias atiçaram a imaginação do poeta.
Contava-se que, nos momentos de ócio Hernández
ia para a Praça Caxias (agora General Osório), e sentava-se nas proximidades do
local onde agora está alojado seu busto. Sob as frondosas árvores, ele buscava
a inspiração para contar a história do gaúcho valente e justo que combatia a
injustiça, movido por seu próprio código de conduta. O idealismo do poeta
também teria deixado rasgos na vida social de Livramento. O surgimento, logo
depois de sua partida, da loja maçônica Caridade Santanense, seria um legado da
militância de Hernández. Para compor seu libelo contra a desigualdade social
com as cores tradicionais do pampa embrutecido, Hernández teria recorrido a um
guasca de carne e osso.
O poeta gaúcho J. O. Nogueira Leiria, autor de
uma tradução de Martín Fierro editada por ocasião do centenário da
publicação original do poema, assegurava que o personagem era brasileiro antes
de habitar os versos de Hernández. Na edição de 14 de setembro de 1957 do
jornal Correio do Povo, Leiria escreveu: "Talvez como testemunho de sua
gratidão, batizou o herói de seu poema com um nome que não era estranho
naqueles pagos: Martín Fierro, famoso gaúcho do Rio Grande do Sul. A simples
menção de seu nome fazia com que tirassem o chapéu respeitosamente os mais
corajosos gaúchos da Banda Oriental, do Chuy até Paysandú e de Rivera a
Montevidéu".
Outros autores também sustentam que Martín
Fierro era um personagem real, antes de se tornar eterno. O uruguaio Rafael
Velazquez encontrou algumas evidências, que publicou como parte da obra La Personalidad Historica de Martín
Fierro. Um memorando militar anota o recrutamento do "indivíduo Martín
Fierro" pelo Batallón 11° de Linea, em Azul. A data é de 16 de agosto de
1866. Mais adiante, Velasquez acrescenta outro documento que sugere registrar
os rastros o gaúcho independente e marginal retratado no poema. Datado de 2 de
agosto de 1866, o bilhete anuncia que o juiz de paz de Monsalvo sentenciou ao
serviço das armas no Batallón 11° de Linea, "o indivíduo Melitón Fierro
por feridas".
O historiador uruguaio ainda iria mais longe em
suas investigações sobre a suposta existência de um modelo vivo para o
personagem de Hernández. Em 28 de agosto de 1967, enviou uma carta ao poeta
riverense Carlos Berruti, em que afirma que o chefe do Arquivo dos Tribunais de
Dolores, César Vilgré La Madrid, enviou-lhe um antigo livro. Tratava-se da
biografia de Pablo Vera, "o que peleou com Martín Fierro". Para o
historiador, estava extinta "toda dúvida relativa à existência carnal de
Martín Fierro".
Para Martín Fierro, não há mais resistência.
Mas não restou documentação da presença de Hernández nas ruas de Livramento.
Dúvidas são saudáveis para a preservação da verdade. Mas poucas pessoas de bom
senso poderiam refutar o fato de que o poeta habitou a cidade. Nesse lapso,
quase seguramente, ele começou a escrever o poema mais célebre da letras
argentinas, em que pesem as ressalvas ao estilo e à qualidade lírica. Já
avisava Martín Fierro no canto 1.192: "É a memória de um grande dom /
qualidade meritória, / e aqueles que nesta história / suspeitem que lhes dou
pau, / saibam que esquecer o mau / também é se ter memórias." (Ricardo Carle, Especial/ZH)
Fonte: ZERO HORA- Caderno de Cultura 28/03/1998
Fonte: ZERO HORA- Caderno de Cultura 28/03/1998
Retirado de http://oblogdonicovega.blogspot.com.br/2011/10/martin-fierro-nasceu-em-livramento.html
Desenhos de Carlos Ferreyra
Assista o Filme completo El Gaucho Martin Fierro
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Martin Fierro nasceu em Santana do Livramento !
Reviewed by Unknown
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novembro 27, 2012
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